September 12th 2007 06:32 pm

Civilização versus selva de carros

Fiquei muito bem impressionada ao ler um post no blog “Carol e Gustavo em Toronto1 cujo título era “Primeiras impressões“.

Me chamou a atenção o seguinte trecho:

Quando eu atravessei uma rua calma para tirar uma foto da casa em frente, uma moça que vinha de carro parou para não atrapalhar a fotografia.

Achei isso o máximo da civilização. A pessoa calmamente parou seu carro para não atrapalhar a foto! Esta é uma cena absolutamente surreal em São Paulo, onde vivemos num trãnsito selvagem com a grande maioria dos motoristas extremamente mal educados, que dirigem considerando o fato de que o mundo gira a seu redor.

A foto a seguir ilustra bem a civilidade do trânsito paulista.

transito_sp_faixa_pedestre

Foto tirada por daniduc, em 12/07/2007, as 18:23.

Faixa de pedestre é algo que o motorista em São paulo não enxerga nas ruas, ele desconhece esse conceito.

Quem vive em São Paulo, acostumado à selvageria dos motoristas que sequer respeitam uma faixa de pedestre (em uma situação que não faria a menor diferença ter-se parado o carro antes da faixa, uma vez que o trânsito estava parado) , ver um motorista parando o carro para não estregar uma foto é algo que se julga impossível.

Recentemente tenho vivido a experiência de ser pedestre nessa cidade e pude constatar e compreender todas as reclamações que sempre ouvi do Dani (daniduc), pedestre há muito tempo em São Paulo.

A cidade não considera a existência de pedestres, ela gira em torno dos carros. O contraste entre o motorista que para o carro no Canadá para preservar a foto de outra pessoa, não existe apenas com o desrespeito à faixa de pedestre por um motorista paulista, mas eu senti um choque de civilização também com uma buzinada que levei de um caminhão enquanto eu caminhava na rua porque a calçada não tinha espaço para mim, não permitia que eu andasse nela.

A calçada estava tomada por árvores, nada contra elas, mas deveria haver um planejamento para que coubessem árvores e pessoas nas calçadas.

Planejamento urbano é palavra inexistente no vocabulários dos políticos paulistas. O objetivo é sempre fazer algo que apareça em 4 anos de mandato para conseguir uma reeleição ou um salto para cargos federais e nada de cuidar da cidade pensando em soluções verdadeiras.

Voltando do trabalho eu fotografei o estado das calçadas num trecho que percorro, ao lado das quais eu tive que ouvir a buzina de um caminhão. Afinal de contas, eu estava me arriscando por que eu queria, claro.

calcadas_intransitaveis_sp

Fotos tiradas por mim, em 04/09/2007, as 17:30. Mais fotos mostrando as condições das calçadas podem ser vistas no set “Calçadas intransitáveis em São Paulo” no Flickr.

Pude confirmar nos últimos dias que São Paulo nao é amiga dos pedestres, o que a torna uma cidade mais difícil de ser habitada, porque não é todo mundo que pode ter um carro ou que pode dirigir e, a necessidade de um carro que a cidade cria, leva a um trânsito cada vez mais caótico, tornando-a cada vez menos amiga dos motoristas também. Assim, me levando a pensar, que São Paulo é uma cidade, infelizmente, difícil de se viver.

E, pensando nisso tudo ainda dá pra falar do estado do transporte público em São Paulo, do modelo americado de cidade com transporte baseado em carros, mas isso já dá tema para um novo post.

1. A Carol e o Gustavo são amigos dos meus amigos Salsa e Érica que estão vivendo em Toronto também.

 

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4 Comments »

4 Responses to “Civilização versus selva de carros”

  1. [the dude’s talk] › São Paulo não é feita pra pedestres on 12 Sep 2007 at 7:00 pm #

    [...] - A Carla publicou um post sobre esse exato mesmo tema. É apenas natural, uma vez que temos discutido esse assunto há algum [...]

  2. daniduc on 13 Sep 2007 at 11:22 am #

    Na foto em que eu tirei, talvez não de pra ver direito, mas o carro está parado em cima da faixa de pedestre. Hã, faixa do que?

  3. Aline on 13 Sep 2007 at 11:43 pm #

    “Planejamento urbano”, está é a palavra. Não querendo puxar sardinha pro meu lado, mas tanto nas políticas municipais, quanto estaduais e federais, faltam geógrafos trabalhando. O Estado carece de pessoas capazes de pensar o espaço como um todo, um espaço ocupado por uma sociedade, que sofre influência desta e que precisa estar apto a recebê-la.

    Mas mesmo apesar disso tudo, eu gosto de ser pedestre em São Paulo. Mesmo com as calçadas saturadas de camelôs, com uma galera de gente me empurrando para passar mais rápido e quase levando junto a minha bolsa, com o chão cheio de buracos e impossível de ser utilizado por qualquer deficiente físico, eu gosto. Mas gosto aqui no centro, que tem metrô pertinho, coisas legais para se ver na rua, gente diferente passeando etc. Não é uma maravilha, veja bem, mas eu gosto de ver de perto a mistura de culturas, é onde a cidade parece viva, onde as coisas acontecem. Ficaria mais feliz se pudesse ser pedestre aproveitando todas essas coisas boas e ainda andar com tranqüilidade, como outro dia, quando fui passear na OScar Freire. Sim, alí na peruagem dos Jardins. Que delícia, exceto pelas peruas, mas as calçadas grandes, tudo arborizado, chão livre de buracos, gente de cadeira de rodas, bengala, gente de tudo quanto é tipo andando. Já pensou toda a cidade assim? Que maravilha…

  4. Carla Duclos on 14 Sep 2007 at 12:26 am #

    Realmente faltam pessoas competentes lá, e certamente os geógrafos seriam profissionais que teriam muito a contribuir com as cidades.
    Mas eu acho que, acima de tudo, falta boa vontade política. Por que será que a Oscar Freire permite até o trãnsito de uma cadeira de rodas (concordo com você, que é como toda rua deveria ser) enquanto que as ruas na periferia não?
    É muito triste, mas aqui perto de casa um deficiente físico, sem carro, não dobra a esquina.
    Tem várias coisas em São Paulo que eu gosto também, e eu fico muito triste com o estado em que os políticos ao longo de anos deixaram essa cidade chegar. Eu gostaria muito de poder andar a pé, de bicicleta, sem medo pelas ruas da nossa cidade. Eu certamente estaria em melhor forma física se isso fosse possível.. hehehe

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